Relato de Experiência: Sobre TEPT e TEPT-C na vida moderna

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TEPT e TEPT-C: quando o corpo segue em frente, mas a mente continua em guerra

Um relato clínico-educacional baseado em experiência profissional, identificação emocional e critérios técnicos (CID-10, CID-11 e DSM-5-TR), com linguagem acessível e compromisso com evidência.

1) Um começo que parece “normal”… até não ser mais

Nem sempre o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) começa com uma grande explosão emocional. Muitas vezes ele começa com pequenas mudanças: o sono piora, o corpo fica em alerta, a irritação aumenta, a paciência some, a pessoa se sente “fora de si” e não entende por quê.

O que muita gente descreve é uma frase silenciosa, repetida por dentro: “Eu sobrevivi… mas parece que uma parte de mim ficou presa no que aconteceu.”

⚠️ Importante: este texto é educacional e preserva identidades. Não substitui diagnóstico. TEPT e TEPT-C exigem análise clínica individual e, muitas vezes, avaliação neuropsicológica e funcional.

2) O que é TEPT (com linguagem clara e base técnica)

O TEPT é uma condição em que o sistema mente-corpo permanece reagindo como se o perigo ainda existisse, mesmo quando a ameaça já passou. O organismo aprende a viver em modo sobrevivência.

2.1 CID-10 (referência clássica)

  • F43.1 – Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).

No CID-10, o TEPT é descrito como uma resposta tardia ou prolongada a eventos altamente estressantes, com sintomas como revivescência, evitação e hiperativação.

2.2 CID-11 (visão mais moderna e precisa)

  • 6B40 – Post-traumatic stress disorder (TEPT).
  • 6B41 – Complex post-traumatic stress disorder (TEPT-C).

O CID-11 separa TEPT e TEPT-C de forma mais clara: o TEPT-C não é “um TEPT mais forte” apenas. Ele inclui uma camada adicional que envolve identidade, autoestima, vínculo e regulação emocional.

3) Evolução clínica: do TEPT ao TEPT-C (como isso acontece na vida real)

Em muitos casos, o TEPT surge após um evento traumático agudo (um episódio marcante). Já o TEPT-C costuma estar associado a traumas repetidos, prolongados ou relacionais — especialmente quando não houve proteção, apoio, reparo ou validação.

📌 Um jeito simples de entender:

TEPT → “Meu corpo revive o trauma.”
TEPT-C → “Meu corpo revive o trauma e minha identidade foi atravessada por ele.”

3.1 Sintomas nucleares (TEPT – CID-11)

  • Revivescência (flashbacks, sonhos, reações intensas a gatilhos).
  • Evitação (lugares, conversas, pensamentos, lembranças).
  • Sensação persistente de ameaça (hipervigilância, sustos, tensão).

3.2 O que torna TEPT-C diferente (camada adicional)

  • Desregulação emocional (explosões, colapsos, entorpecimento, choro tardio).
  • Autoconceito negativo (vergonha crônica, culpa, sensação de defeito interno).
  • Dificuldades persistentes nos relacionamentos (vínculo, confiança, medo, dependência ou isolamento).

4) A história por trás do CID: quatro contextos onde o TEPT aparece

4.1 Contexto de Trabalho (e a NR-1 em 2026)

Existem pessoas que não percebem que estão adoecidas: elas acham que estão apenas “cansadas”, “sob pressão” ou “sem tempo”. Mas o corpo começa a enviar sinais: insônia, ansiedade, irritabilidade, falhas de memória, lapsos atencionais e sensação de esgotamento emocional.

E aqui entra uma virada histórica no Brasil: a partir de maio de 2026, a NR-1 passará a incluir expressamente fatores de risco psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e no inventário de riscos, ao lado dos riscos físicos, químicos, biológicos, de acidentes e ergonômicos. Isso foi estabelecido por portarias do Ministério do Trabalho e Emprego e a vigência foi prorrogada para 2026.

🔎 Exemplos de riscos psicossociais no trabalho:

  • metas impossíveis e excesso de cobrança;
  • sobrecarga, falta de pausas e jornadas estendidas;
  • assédio moral e ambiente de medo;
  • falta de apoio de liderança;
  • comunicação disfuncional e conflitos constantes.

Em pessoas vulneráveis por histórico traumático, essas situações podem funcionar como “combustível” para reativar o modo sobrevivência, gerando sintomas persistentes compatíveis com TEPT e TEPT-C.

4.2 Contexto de Vida: apego, sobrevivência e impulsividade

Alguns quadros começam muito antes do trauma “virar trauma”. Começam como infâncias emocionalmente desassistidas, onde a pessoa aprendeu a viver em alerta.

Um caminho comum é: Transtorno de Apego / feridas relacionais → modo sobrevivência → impulsividade. Não porque a pessoa “quer” ser impulsiva, mas porque o cérebro tenta resolver ansiedade com urgência. A impulsividade passa a ser uma tentativa de controlar o incontrolável.

🧠 Na prática, isso pode aparecer como:

  • decisões rápidas demais para aliviar desconforto;
  • tolerância muito baixa à frustração;
  • hiperinterpretação de sinais sociais (ameaça onde não há);
  • ciúmes, reatividade ou desligamentos emocionais;
  • uma necessidade interna de “não depender de ninguém”.

4.3 Contexto de Frustrações: Altas Habilidades negligenciadas e estresse crônico

Existe também um tipo de sofrimento silencioso: o de pessoas com Altas Habilidades/Superdotação (AHS) cuja indicação foi negligenciada por décadas.

Entre as décadas de 1980 e 2000, muitos crivos de identificação eram estreitos e centrados quase exclusivamente no QI global. Com o avanço científico, compreendemos melhor critérios frequentemente ignorados: assincronia do desenvolvimento, sobre-excitabilidades, hiperconsciência, sensibilidade emocional, pensamento profundo, intensidades afetivas e vulnerabilidade à invalidação social.

Quando uma pessoa brilhante cresce sem reconhecimento adequado, ela pode viver repetidas experiências de: não pertencimento, cobrança, inadequação, solidão, autocobrança e desregulação. Isso cria um terreno fértil para estresse crônico — e estresse crônico, por si, é uma forma de desgaste neuroemocional que altera sono, memória, imunidade e tolerância à frustração.

4.4 Contexto do “trabalho invisível” (mulheres, filhos, casa e mundo)

Um dos relatos mais frequentes que atravessam TEPT-C não vem apenas de um evento “dramático”. Vem de uma soma cruel de coisas pequenas, silenciosas e repetidas.

Muitas mulheres sustentam simultaneamente: filhos + casa + trabalho formal + trabalho emocional + gestão invisível da vida. Elas contribuem, inovam, empreendem… e ainda carregam tarefas que ninguém vê — mas que consomem energia vital.

📌 Índices de estresse como vulnerabilidade:

Quanto mais a pessoa sustenta o mundo sem suporte, mais o sistema nervoso entra em estado de ameaça. O corpo vira um “alarme ligado” — e o afeto vira um “recurso escasso”.

5) Infâncias negligenciadas: traumas que o adulto tenta “normalizar”

TEPT e TEPT-C muitas vezes estão ligados a infâncias onde houve: ausência de proteção, inversão de papéis (criança cuidando de adulto), invalidação emocional, ou exposição repetida a ameaça e instabilidade.

⚠️ Exemplos de abusos e negligências que podem gerar vulnerabilidade:

  • psicológicos: humilhação, gaslighting, críticas destrutivas, ameaças;
  • sexuais: violação, coerção, exposição, manipulação;
  • físicos: agressões, punições, violência doméstica;
  • intelectuais: sabotagem do estudo, proibição de crescer, controle do pensamento;
  • financeiros: dependência forçada, exploração, confisco;
  • políticos e sociais: perseguição, assédio institucional, medo contínuo e insegurança.

O mais triste é que, com o tempo, a pessoa não chama mais isso de trauma. Ela chama de “vida”. E é por isso que uma avaliação bem feita muda destinos: porque nomeia o que ninguém nomeou.

6) Como a teleneuropsicologia ajuda (e o que avaliamos)

O sofrimento traumático não é apenas emocional. Ele é também cognitivo e funcional. Em avaliação neuropsicológica (inclusive em contexto de teleneuropsicologia), investigamos impactos em:

  • atenção sustentada e seletiva;
  • memória (especialmente sob estresse);
  • velocidade de processamento;
  • funções executivas (planejamento, inibição, tomada de decisão);
  • regulação emocional e coping;
  • capacidade de retorno ao trabalho e vida social.

7) Quando vale investir em avaliação (o ponto de virada)

✅ A avaliação é indicada quando:

  • o sofrimento tem repetição, não é “fase”;
  • há queda funcional (trabalho, relações, autocuidado);
  • há sintomas persistentes de ameaça, evitação e revivescência;
  • há desregulação emocional e vergonha crônica;
  • há dúvida entre diagnósticos parecidos (ansiedade, pânico, TDAH, depressão, dissociação, personalidade);
  • você quer clareza técnica e um plano de cuidado possível.

8) Perguntas frequentes (FAQ)

TEPT e TEPT-C são a mesma coisa?

Não. O TEPT (CID-11 6B40) envolve revivescência, evitação e sensação persistente de ameaça. O TEPT-C (CID-11 6B41) inclui isso e também alterações persistentes de regulação emocional, autoconceito e relacionamentos.

TEPT pode parecer ansiedade ou burnout?

Sim. Muitos casos chegam como ansiedade, estresse crônico, burnout, irritabilidade e dificuldades cognitivas. Por isso a avaliação clínica cuidadosa é tão importante.

Teleneuropsicologia pode ajudar mesmo sem estar presencial?

Sim, desde que seja feita com critério técnico, instrumentos adequados, segurança e orientações éticas. Em muitos casos, a teleneuropsicologia permite rastreio funcional, avaliação cognitiva e direcionamento terapêutico.

A NR-1 tem relação com saúde mental no trabalho?

Sim. A partir de maio de 2026, a NR-1 passa a incluir expressamente os fatores de risco psicossociais no GRO/PGR e no inventário de riscos, fortalecendo o olhar sobre saúde mental como parte da segurança do trabalho.


9) Referências e base de confiabilidade

  • Classificação Internacional de Doenças – CID-10: F43.1 (TEPT).
  • Classificação Internacional de Doenças – CID-11: 6B40 (TEPT) e 6B41 (TEPT-C).
  • NR-1 (Brasil): inclusão dos fatores de risco psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais com vigência a partir de maio de 2026.

Assinatura profissional:
Juliana Galhardi Martins – Psicóloga & Neuropsicóloga • CRP 06/76313
Atendimento e Avaliação Neuropsicológica (presencial e teleneuropsicologia)

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Juliana Galhardi Martins
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